Ficamos com medo de sair de casa.
Ficamos mais à vontade aí dentro com nossas famílias, nosso conforto, nossa segurança. Temos a certeza de que aí nunca seremos atacados por feras selvagens, plantas carnívoras, seres humanos selvagens e carnívoros.
Lá fora, eles estão à vontade. Muriçocas fazendo pose de machões.
- Ei, chapa, me dá cinqüenta centavos.
Não pedem, exigem. Eles estão no comando, estão em seu habitat. Temem os sapos mais gordos, que não se importam com as oferendas que eles o fazem. Os mais magros e a espécie, antes tão rara e agora tão comum, sugadora de sangue são seus amigos. O primeiros se deliciam com as pedras que lhe oferecem, são submetidos aos mandos de insetos, não reclamam: deve parecer um banquete. Os últimos enfiam a língua fundo até o esôfago do mosquito e sugam lhe alguns restos de alimento, têm um pacto, são camaradas, são amantes pervertidos.
- Me dá cinqüenta centavos, aí.
Mentimos, claro. O sangue é nosso, é sangue suado. Alguns acham que uma picadinha não dói, mas é uma bala de canhão afilada.
- Então me dá teu dinheiro todo.
É a dor da impotência! Somos a caça! Os braços estão amarrados, debatemo-nos no chão: agora o mosquito pode nos pisotear, nos esmagar. Ele ri baixinho, dentro de si, camufladamente. Várias caças passam por eles e não se pode assustá-las para a carne não perder a fragilidade.
- Isso aí é um celular?
Fomos extorquidos, cambaleamos. Restava apenas a dúvida: orelha ou tudo? Fora-se o ouvido tão útil. O egoísta agora tem três ou mais.
- Valeu, cara.
Somos seus camaradas, agora, compramo-lhe a simpatia. Não há sapos. Só há predadores e presas. Há o vazio, há a fraqueza, há a vontade louca, o "wollen" de virar um sapo troncudo, o Sapão, pular nas costas do infeliz e arranca-lhe as mãos à mando de Hamurábi. O mosquito se foi.
Voltamos para casa. Estamos seguros, com a família, com o conforto, ainda bem. Os sapos são alertados, alguns dão um pulo lá, outro esperam pela ceia. Ligamos a televisão, deprimidos.
Agora, temos medo de ficar em casa.
Entre sapos e mosquitos
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